segunda-feira, 21 de março de 2011

"Oração até debaixo d'agua"

  Deus não desistiu de Jonas, não desiste de você. Não desiste de seus escolhidos...

Neste ponto da narrativa da história de Jonas parece que atingimos o ápice de sua desgraça e desesperança. Sua vida e seu ministério parecem definitivamente liquidados. Mas é neste ponto que nos é lembrado que “o dom e a vocação de Deus são irrevogáveis”. “Deparou o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas; e esteve Jonas três dias e três noites no ventre do peixe. Então Jonas do ventre do peixe orou ao Senhor, seu Deus e disse: ‘Na minha angústia clamei ao Senhor, e ele me respondeu; do ventre do abismo gritei, e tu me ouviste a voz”. Deus não desiste de Jonas – embora o que parecia era que Jonas desistira de Deus completamente. Todavia ele dá a impressão de ser o exemplo clássico da pessoa que só ora em dificuldade extrema. Se não, observe: ele não orou para decidir (Jn, 1:3); não orou quando a tempestade veio (Jn, 1:4); não orou quando todos oravam (Jn, 1:5); não orou quando a verdade sobre sua fuga se tornou pública (Jn, 1:10,11); não orou quando os marinheiros, num último rasgo de solidariedade humana, tentavam chegar à terra remando (Jn, 1:13); não orou quando os marinheiros oravam pedindo a Deus que não os culpasse por terem que lançá-lo ao mar (Jn, 1:14); e provavelmente não orou nem no primeiro nem no segundo dia no ventre da baleia, o grande peixe, o monstro marinho, porque se tivesse orado antes talvez a história não houvesse contado que ele permaneceu no ventre três dias e três noites. O profeta Jonas parece ter sido realmente renitente: deixou para orar no último dia. É, no entanto no ventre do peixe que ele começa a recuperar sua saúde humana e sua fé. É no ventre do peixe que começa a recuperar a saúde da alma, quando restaura uma das mais fantásticas possibilidades da alma humana, a possibilidade da angústia. Quando diz: “Na minha angústia clamei ao Senhor”. Angústia aqui aparece como um sintoma de que a alma está viva. Pois até então sua apatia só falava de uma alma sem nervos, morta. “Pois me lançaste no profundo, no coração dos mares, e a corrente das águas me cercou, todas as tuas ondas e as tuas vagas passaram por cima de mim. Então disse: ‘Lançado estou de diante dos teus olhos; tornarei porventura a ver o teu santo templo?” Com toda a sua teologia, Jonas ainda pensava ser possível, na prática, fugir de Deus. Isso porque orava suplicando livramento, sem contudo entender que a própria tragédia de ter sido engolido pelo monstro era parte da resposta que buscava em Deus. Jonas não entendia tragédia como possibilidade de expressão do amor de Deus. “As águas me cercaram até à alma, o abismo me rodeou, e as algas se enrolaram na minha cabeça até os fundamentos dos montes. Desci até a terra, cujos ferrolhos se correram sobre mim para sempre; contudo fizeste subir da sepultura a minha vida, ó Senhor, meu Deus!” No auge de um quase sadio desespero Jonas experimenta a realidade existencial da ressurreição: é arrancado da sepultura. Ele tinha que morrer para poder provar o poder existencial da ressurreição: “Quando dentro em minha oração”. Oração é a única e suficiente resposta da alma em crise ao Deus que busca restaurá-la. Oração é o sinal por excelência de que a alma ainda está viva: “Os que se entregam à idolatria vã abandonam aquele que é misericordioso”, diz Jonas. Neste ponto Jonas assume sua própria idolatria. Isso porque no contexto do livro o único verdadeiramente idólatra é ele. Ele foi aquele que cultuou de forma tão absoluta a ideologia e o nacionalismo que preferiu fugir de Deus a ter que trair seus compromissos políticos e ideológicos. Agora ele diz: “Mas com a voz do agradecimento eu te oferecerei sacrifício; o que votei, pagarei. Ao Senhor pertence a salvação”. Jonas resolve que se houvesse uma outra chance ela não seria desperdiçada. Uma vez livre da tragédia de estar preso no porão dos oceanos, ele se compromete a cumprir a missão da qual fugira. Rende-se, pois à implacável perseguição do amor de Deus, na sua obstinada insistência de não perder um profeta, de não perder um líder. “Falou pois o Senhor ao peixe, e este vomitou a Jonas na terra. Veio a palavra do Senhor segunda vez a Jonas, dizendo: ‘Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive, e proclama contra ela a mensagem que te digo’. Levantou-se, pois Jonas, e foi a Nínive, segundo a palavra do Senhor. Ora, Nínive era cidade importante diante de Deus, e de três dias para percorrê-la. Começou Jonas a percorrer a cidade, caminho de um dia, e pregava e dizia: ‘Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida’. Os ninivitas creram em Deus; e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor. Chegou esta notícia ao rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou de si as vestes reais, cobriu-se de pano de saco, e assentou-se sobre cinza. E fez-se proclamar e divulgar em Nínive: Por mandado do rei e seus grandes, nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas provem coisa alguma, nem os levem ao pasto, nem bebam água; mas sejam cobertos de pano de saco, assim os homens como os animais, e clamarão fortemente a Deus e se converterão cada um do seu mau caminho, e da violência que há em suas mãos. Quem sabe se voltará Deus e se arrependerá e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos? Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho: e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez. Com isso desgostou-se Jonas e ficou extremamente irado”. Na sua opinião o próprio caráter misericordioso de Deus trabalhava agora contra os sonhos de libertação dos oprimidos. Isso porque enquanto Deus estivesse agindo entre aqueles que Jonas considerava os poderosos da terra não haveria nenhuma chance de que sua justiça os esmagasse. O que ele queria não era vê-los salvos, mas achatados, esmagados. Assim ele diz: “Peço-te pois, ó Senhor, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver”. Sem a causa política em perspectiva, mais uma vez perde a razão de viver. Desse modo ele também se apresenta a nós como sendo uma representação daqueles cujos projetos existenciais não admitem mudanças contrárias às suas expectativas. O excesso de história na perspectiva histórica de Jonas lhe roubara o desejo de viver na história. Isso porque ninguém vive só de história na história. Sem trans-história a própria história perde seu valor histórico. O temporal só tem sentido se for vivido com a perspectiva do eterno. Mas Jonas não pode conceber que o regime político que chamou de “a besta” esteja sendo poupado por Deus. Por isso se nega a viver no mesmo mundo dos ninivitas. Repugna-lhe a idéia de fazer parte de um mundo governado por ninivitas. O apelo final de Deus a Jonas é no sentido de que ele recupere a possibilidade da compaixão e da misericórdia. Em outras palavras, Deus está dizendo que a única forma de se viver qualquer projeto em nome dele na história é colocando a causa da salvação acima de tudo, inclusive acima daquelas causas às quais muitas vezes são atribuídos interesses prioritários relacionados ao seu reino. Além do mais, não há nenhuma saúde possível para o homem de Deus que não tem dentro de si a possibilidade do amor compassivo. Sem esse amor compassivo a vida mergulha na amargura, no justicismo perverso, na unilateralidade ideológica e num viver que perde a possibilidade do amor e da compaixão, cujo único fim e propósito é alimentar na alma a amargura de não conseguir amar aquelas criaturas estranhas em volta de nós, tão amadas por ele. Portanto, meu irmão e minha irmã, o apelo de Deus a todos nós é este: “Volte a amar tudo e todos quantos eu amo, mesmo os mais inamáveis da história. Caso contrário, sua vida será marcada pela tragédia de um amargor sem cura”.                            
                                                                            Letícia Ferreira.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...